Diário Clínica St. Roman . Final de mais um ciclo: últimos dias internado na psiquiatria da Casa de Saúde Saint Roman

Monday, December 7, 2009 18:03

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23.8.9 (Domingo) . 20:00hs
(continuação)

Ainda há pouco minha namorada ligou, e é realmente muito estranho não sentir nada por ela aqui dentro. Não sei se isso vai passar ao sair, nem como resolver nossos problemas, se for o caso, e estou evitando entrar em contato com isso, colocar no papel; e sei que não posso ficar enrolando, adiando decisões, quando elas tiverem que ser tomadas. Estou apavorado com o que vem pela frente com relação à isso, à Juliana, à Lu, Thays, Portraits e o que mais me parecer disponível por aí. Eu quero tudo ao mesmo tempo, sem cobranças, sem a parte ruim das relações, ou seja, não quero relações, e sim fantasias. Hoje, conversando com a Lu, vi que tenho todas as ferramentas, muitas mesmo, para fantasiar uma coisa de destino, bla, bla, bla. Mas ainda bem que não estou mais tão vulnerável à esse tipo de auto-engano.

Reparei que não fiz nenhum tipo de leitura, nem meditação, e pouco conversei com Deus, a não ser assim, através da escrita. O fone, agora mesmo no meu ouvido (acabei de tirar), me tira um pouco a concentração, evitando pensar muito nas coisas, entrar em contato.

22:35hs

Ando forçando a barra pra escrever, desde ontem, como se a internação fosse um momento mágico pra poesia, por exemplo. Uma sensação de ter desperdiçado tempo que poderia ser de trabalho, com conversas e etc. Pura piração, cobranças sem sentido.

 

E estas foram as últimas palavras escritas sobre meus dias de internação, que só terminaram de fato numa quarta-feira, dia 26 de agosto de 2009.

Conclusões? Ainda não…

 

Leia o Diário Clínica Saint Roman do início, clicando aqui

Diário Clínica St. Roman . O medo da saída, questões, ansiedade

Monday, December 7, 2009 16:51

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23.8.9 (Domingo) . 20:00hs

Acordei com a boca muito seca, como acontece sempre que o s.o.s. é o Seroquel, que dessa vez foi de 100mg. Soube pela manhã, que além disso, a médica colocou mais 50mg dele como padrão às 22hs, já que essa semana foram três vezes que recorri à medicação pra dormir. Fiquei imaginando como será em casa, mas lá não vou ter esses horários exatamente. Dá pra ficar até no máximo 1 ou 2 da manhã acordado. Também não sei o que vai ser mantido na alta, mas de qualquer forma, nunca usei tanta medicação na vida, e não me importo que continue, desde que eu me sinta bem, tempo suficiente pra me organizar e criar condições naturais, que estão sendo supridas pelos remédios, por ora.

Hoje já comecei a sentir aquela sensação de adeus, que vai dando nos últimos dias. Um misto de medo do mundo real e das decisões pela frente, com uma saudade antecipada das boas coisas daqui, que ao contrário do que possa parecer, são muitas. Tive apenas alguns momentos de irritabilidade, normais até, pela situação.

Por duas vezes me irritei com um dos pacientes, e uma vez com um enfermeiro cuzão que tem aqui, o mesmo que tentou “cantar” a Juliana. Pedi minhas coisas de barbear às 17:30hs e ele negou, dizendo que objetos cortantes só de 9 às 17hs. Ok, regras são regras, mas porque só sabemos delas quando nos negam algo? É terapêutico esse tipo de frustração em um ambiente já tão cheio de restrições? Sem contar que a maioria têm um pouco de bom senso, e não fica cagando regra imunda enquanto está preocupado com o jogo de futebol passando na TV. Dei dois socos na parede do banheiro, com aquele sentimento agressivo que tenho na contrariedade, e ainda voltei lá, pra forçar a barra e arrumar alguma confusão, mas não forcei muito, e ele também não se doeu… ficou por isso mesmo. Já vi ele falando em tom de ameaça com outros pacientes por menos, mas ele me olha de um jeito diferente, que não é medo, talvez respeito, sei lá porque.

 

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Diário Clínica St. Roman . Entre um mundo e outro, uma mente, duas vidas

Monday, December 7, 2009 16:07

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22.8.9 (Sábado) . 22:55hs
(continuação)

Aqui, fazemos uns com os outros exatamente o que não gostaríamos, não achamos justo, que fizessem conosco lá fora. Nos julgamos, separamos, criamos rixas e grupos; elegemos algumas vezes alguém como saco de pancada, descarregando nossas frustrações e raivas. Eu e um paciente específico, principalmente, criamos apelidos para vários deles, como Boneco do ventríloquo, Marionete do capeta, Mum-Rá, Michelin, Boneco de marshmellow e etc. E temos nossas piadas internas relacionadas, debochando muitas vezes na frente deles mesmos. No primeiro andar, haviam formado uma roda pra curtir os delírios de uma paciente e eu participei sem remorsos. Ninguém se ajuda de verdade, a não ser quando há perspectiva de vantagem. Ou seja, nenhuma diferença do dito mundo normal.

Ainda há pouco, antes das 00hs, pedi um s.o.s. pra dormir, mesmo sabendo que com um pouco de paciência poderia continuar escrevendo até o sono vir. Já é a segunda vez que, conscientemente, faço isso.

Meu quarto está um caos, nada diferente de como era em casa. E aqui a depressão, quando bate, é bem mais forte. Sinto que estou ficando pior por estar aqui, nesta última semana. Já deveria estar em casa. Mas também tenho medo de voltar, encarar tudo aquilo que deixei lá fora. É realmente uma perspectiva bastante assustadora.

Há tanto a escrever, desenhar, pensar, fazer. E nem o enorme tempo de ócio que tenho aqui me adianta. Já é a terceira folha, e se não frear, escrevo umas dez… mania, só mania. O efeito do remédio está chegando, e estou gostando… droga.

 

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Diário Clínica Saint Roman . Mais um caso imaginário . Brincadeiras com o real

Monday, December 7, 2009 15:50

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22.8.9 (Sábado) . 22:55hs
(continuação)

Meu “caso” com a Lu está ficando cada vez mais próximo, ainda bem que perto da alta. Ela, diferente da Juliana, realmente não tem nada a ver comigo, mas aqui ficam essas ilusões, exageros e etc…
A historinha seria até bonitinha, se eu não estivesse ao menos um pouco mais consciente. Nosso primeiro momento juntos, foi deitados em espreguiçadeiras no gramado, de frente para um quase pôr-do-sol. Mostrei borboletas dançando pra ela e ficamos ali calados. Eu senti um astral maravilhoso, coisa que ela me disse ter sentido também. Antes, ela ficava tentando se aproximar e eu rejeitava, enquanto ela ainda estava muito fora de si. Depois, fomos nos aproximando.

Hoje, juntando com outros fragmentos anteriores, o que tenho como possível fato é que estamos “apaixonados” um pelo outro, no sentido de curtir proximidade e pequenos contatos, fantasiar uma relação que não vai acontecer, ao menos não, certamente, da maneira que imaginamos. Tivemos mais contatos físicos hoje, e um simples toque de mãos já fazia ela pedir pra parar. Acariciei o rosto dela, disse que queria beijá-la, acariciei-lhe os pés. Ela disse que queria deitar no meu colo e mais tarde contou-me ao ouvido ter “pensado em mim”.

Vejo tudo isso como carência e desejo sexual do que qualquer outra coisa. É bonitinho inventar historinhas, mas não estou a fim. Com a Juliana talvez esteja fazendo o mesmo, mas quero experimentar. Liguei pra ela no seu aniversário (hoje), e tentei falar com a Thays, sem sucesso. Que saudade, às vezes, sinto dela! E não sei o que pode ser isso. Eu acho que sei lá… amo? Talvez. Muito complicado falar de sentimentos aqui. Mas sei que quero experimentar coisas diferentes nesse sentido. Pra isso, tenho que resolver a relação com minha namorada e com a própria Juliana, inventariar o que aconteceu após a minha primeira internação, principalmente quando dizia que não queria uma relação estável, mas só busquei isso. Outro assunto, não agora…

 

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Diário Clínica St. Roman . Pensamentos: O contato social como anestesia

Sunday, December 6, 2009 19:37

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22.8.9 (Sábado) . 22:55hs

Acordei bem, como de costume, tendendo à euforia, que começa geralmente com o contato com as pessoas no café da manhã. Nenhum incidente significativo. Apenas fiz questão de estar com as pessoas, mesmo que às vezes fosse incômodo, e de fato, a depressão não conseguiu se instalar. Estou quase convicto de que socializar evita a depressão, mas de todo modo, questiono isso como modo de vida, já que o contato social não me faz encarar as causas do que me deprime. Apesar de ser uma doença e não precisar de um motivo específico para que surja, há por trás alguma causa, existencial talvez, bem longe dos acontecimentos cotidianos. O contato social aí funciona como um ansiolítico pra dormir. Abafa o que trás a falta de sono, como solução temporária para diminuir o sofrimento. Mas é certo, que preciso tomar cuidado com o isolamento, pois é mais grave do que a maneira como o encarava.

Houve só um momento em que pensei na namorada, e numa possível separação, que tive vontade de chorar. Estão terminando meus dias aqui, saio na quarta, e preciso encarar isso de frente ainda aqui dentro.

O resto do dia foi só sacanagem e perda de tempo, zoando qualquer um - anestesia. Uma pena não poder escrever, muito menos gravar ou filmar as coisas que acontecem aqui. Quanto material! Sonho em um dia me internar aqui apenas pra colher material de trabalho, mas isso é praticamente impossível, já que envolveria a conivência da administração e pelo menos um psiquiatra.

Minha Mãe e irmã me visitaram. Fiquei feliz de ver minha irmã vindo aqui, e um pouco triste porque minha namorada não tem vindo nem ligado. Sei que ela pensa vou terminar, mas não é só isso. Lembrei agora que, mesmo com trabalhos, afazeres e etc, quando estamos envolvidos, damos um jeito. Pensar nessa “trama” toda da nossa relação já me trás angústia, tristeza, saudades até.

 

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Diário Clínica St. Roman . Carta de suicídio, carência, loucura, desespero e morte

Sunday, December 6, 2009 17:30

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21.8.9 (Sexta) . 22:10hs

Hoje foi foda. Passei o dia todo me escondendo com fones de ouvido e óculos escuros, ignorando até mesmo os que vinham falar comigo. O dia foi passando, e no banho, já no final da tarde, notei que estava naquele estado de não sentir nada, mesmo quando forçava a barra pra sentir. Já na hora do jantar, enquanto tentava me isolar e a Lu tentava falar comigo, ela contou de um ex que ela abandonou e que sofreu muito. Comecei a chorar na hora, lembrando da minha namorada. Aqui dentro, a impressão que tenho é a de que é certo que não quero continuar a relação, mas não tem como saber o que vou sentir lá fora, é bem diferente. Estou evitando até o contato telefônico. Nunca liguei pra ela daqui, estranho isso. Talvez porque ela me remeta à cobranças, ou realidade, não sei.

Daí em diante só piorou. Não jantei e fui pro quarto. Alternei sentimentos de desespero e raiva. Aliás, antes de descer tive esse sentimento de querer quebrar as coisas, e ainda lá embaixo, pensei no suicídio e nas duas coisas que me impedem: a parte espiritual, que acabo deixando de lado nessas horas; e o lado dos que ficam, o sofrimento que vou causar. Mas ali pensei numa maneira de minimizar isso - uma carta de suicídio. No quarto, fiquei olhando as veias do pulso e imaginando qual seria melhor, qual não teria perigo de cortão o tendão. Imagine, alguém que supostamente planeja a morte, preocupado com o tendão. O objeto que mais me chamava a atenção, aliás, o único que teria coragem de usar, era o apontador (as lâminas). Tive espasmos de choro desesperado e repeti falas sozinho. Por incrível que pareça, pensar na Bebel (minha cachorrinha) me deixou mais triste que qualquer outra coisa. Queria abraçá-la aqui mesmo no meu quarto. Fiquei repetindo, “minha bebelzinha” algumas vezes, baixinho; e quando reparei no que estava fazendo, passei a repetir compulsivamente “não quero ficar louco”, com a toalha no rosto, olhando a lâmpada no teto. Uma sensação indescritivelmente horrível, que depois de passar se perde totalmente no tempo. A essa altura, já tinha esperado umas 2hs pelo médico, que nunca vem. Resolvi entregar o apontador na enfermagem, e agora vejo que não foi por medo, mas pra colocar pressão. Entreguei dizendo que se fosse depender de atendimento médico tava fudido.

Na troca de plantão e hora do remédio, estava louco de raiva, imaginando que cena faria, o que quebraria, e prevendo amarras e sedativo, que naquele momento seria uma bênção. Questionei o novo plantão e uma enfermeira perguntou se podia adiantar algo. E eu respondi somente que, pra ela ter uma idéia, havia entregado ali o apontador.

Depois disso não demorou 10 minutos para o médico chegar, mas na realidade a crise já tinha ido embora. De qualquer forma, me senti amparado, com medicação revista (mesmo não tendo mudado nada) e atenção redobrada dos enfermeiros, o que foi suficiente pra melhorar um pouco mais. Muita carência… pensei o tempo inteiro o quanto seria bom descer e pedir colo, carinho pra Lu, não por ela, mas por ser a única que me desperta ainda algum interesse. Também senti vontade de falar com a Thays. Aliás, queria ela aqui na visita de amanhã, dar um abraço apertado nela.

Depois liguei pra minha Mãe, mais por não ter atendido telefonema nenhum hoje e também pra pegar o telefone da Thays, quando tive que ouvir um pequeno sermão sobre eu estar aqui pra me tratar, bla, bla. Minha Mãe não entende… A Thays entenderia o que contasse pra ela, porque sentia o mesmo, e esteve aqui comigo no ano passado. Apesar de estarmos distantes, é uma pessoa que me vem à mente quando quero colo. Liguei depois pra Juliana, e foi ótimo ouvir as risadas dela, brincando sobre como seria nós dois depressivos, discutindo formas de suicídio. Ela me fez rir um bocado, e aliviou bastante a pressão que eu sentia.

Agora há pouco veio a enfermeira aqui no quarto, olhando tudo, com razão. Boa pessoa, que inclusive sentou ao meu lado, segurou minha mãe e ficou tentando me consolar enquanto chorava, antes da chegada do médico. Eu sou muito carente, já sabia; mas só agora percebo que é bem mais que imaginava.

Outra coisa que me chamou atenção foi quando a Juliana falou das maneiras de alimentar a depressão, e uma é o isolamento. E foi exatamente o que fiz hoje, o dia todo.

 

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Diário Clínica St Roman . Mudança de foco: Administração, médicos, equipe de enfermagem

Sunday, December 6, 2009 14:22

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19.8.9 (Quarta) . 23:25hs

Como nos últimos 3 ou 4 dias, acordei bem, tendendo à euforia, com piadinhas exageradas e etc. O dia permaneceu assim, sem grandes oscilações, até às 14:00hs, quando solicitei à enfermeira que mantivesse meu ar-condicionado ligado, pois ficaria no quarto escrevendo. A enfermeira foi irredutível e arrogante - a mesma que barrou os chocolates e refrigerantes em outra ocasião. Como ontem tive a informação do enfermeiro que dependia deles a questão do ar, tentei explicar, enquanto ela repetia a mesma curta frase negativa sem nem me olhar. Tive que subir um pouco o tom de voz e dizer que ela iria me ouvir. Então ela disse que se informaria. Nisso, uma das psicólogas passou e falei à respeito, tendo como resposta que deveria falar com a psicóloga que me atende (amanhã somente). Fiquei sem o ar e meio transtornado, porque não tem ventilador, estava muito quente e não conseguiria ficar aqui escrevendo.

Entendo que, se há uma descrição de “quarto individual com ar-condicionado”, ele deve ficar ligado o tempo que eu quiser. Mas entendo também que, sendo uma instituição psiquiátrica, certas medidas são terapêuticas, como para evitar que os pacientes se isolem. O problema na verdade são as sucessivas recusas, respostas atravessadas, descaso e até mesmo abuso por parte da equipe de enfermagem, que têm colocado receio e até medo em alguns pacientes, mesmo na hora de solicitações corriqueiras, como se estivessem ali pra fazer o que querem e não nos ajudar no tratamento. Isso tem causado sérios problemas entre todos, inclusive, com pacientes fazendo queixas desse tipo no grupo-terapia, que teoricamente serviria para que falássemos sobre nossas questões.

Ainda há pouco, pedi pra que falassem com a plantonista, porque ainda estou “ligado”, são 00:10hs, e o horário do café, por exemplo, é às 7:30hs. Até o médico vir, receitar e buscarem na farmácia da clínica, e ainda fazer efeito, seria muito tempo. Pedi às 11:40hs mais ou menos, e sei que s.o.s. só a partir de 11:15hs. A enfermeira (outra), me questionou, porque tomo as últimas medicações às 22:00hs. Mesmo contrariado, disse que esperaria quanto quisessem então, mas fiquei remoendo isso e arquitetando coisas a serem ditas e exigidas. Finalmente, fui até lá solicitar o médico (não pedir) e já tinha falas programadas do tipo: “Você vai chamar o médico quando resolver trabalhar, ou quando eu estiver precisando?” Mas, ainda bem, a medicação já havia sido pedida.

O atendimento está muito precário, aquém do que se paga. Todo mundo sempre muito ocupado e indisponível para dar atenção. Hoje, por exemplo, nem vi a cara do médico, nem ele a minha. Simplesmente rabiscou uma medicação qualquer. Ontem, quando também não tive sono (recorrente há dois dias seguidos) pude inclusive argumentar sobre o tipo e dosagem. Além disso, houve um momento no dia em que minha pressão estava em 15/8, e não foi mais aferida, nem tive consulta clínica. É tudo na base do foda-se. Observei a enfermeira folheando as ocorrências do plantão anterior, e parecia alguém folheando revistas para ver figuras. O salário deles é uma merda, mas também não é meu papel resolver, nem ficar no meio disso. Vim pra ser tratado.

Voltando à questão do ar-condicionado, tive indicações da psicóloga que seria saudável agora, esse meu recolhimento, mas como cada plantão faz o que quer, nunca me passou pela cabeça de que ela deveria deixar isso por escrito. O clima aqui anda pesado. Funcionários grossos e insatisfeitos. Um dos pacientes mais surtados incomodando pacientes e enfermeiros; pacientes que acham que vão exercer política aqui dentro; outro com mania de perseguição e ainda uma outra querendo bancar a xerife. Nisso, essa última, inventou um abaixo-assinado pra tirar uma paciente do andar, o que achei patético. Obviamente não assinei nada, desci, e mais tarde soube da pancadaria e das restrições. As pessoas procuram um bode expiatório, justamente pra não ter que se enxergarem. Por duas vezes hoje, senti-me seduzido por outras pacientes; uma que ficou me acariciando e outra que conversava comigo, seu olhar e postura era sexo puro. Sou muito fraco com relação à isso, cedo à alguns impulsos. Vejo ainda a necessidade de encontrar uma forma de não encarar a realidade. Sobre o ar ainda (eita), fiquei uma boa parte do dia na sinuca por conta disso, enquanto poderia estar produzindo.

1:15hs (Quarta-Quinta)

Agora há pouco, nem sei como começou, mas bati um papo com as duas enfermeiras sobre nosso problema com eles e os deles com a gente e a administração. Foi ótimo, porque quebra aquele clima de inimizade. Elas desabafaram bastante. Adorei.

 

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Diário Clínica St. Roman . Ideías de suicídio / pensamento suicida

Thursday, December 3, 2009 6:57

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18.8.9 (Terça) . 23:55hs

Depois da última consulta psiquiátrica, fiquei com raiva, remoendo essa idéia de uma suposta crise existencial. Caí rapidamente em depressão e deduzi que, se estou aqui por uma “crise existencial”, o que continuo fazendo aqui?

Senti saudades de minha casa até, vontade de não estar aqui, inadequado entre “loucos” e não me sentido tratado. Resolvi que iria embora, e as maquinações a esse respeito começaram. Chorava, ora melancólica, ora desesperadamente. Pensava no meu estado aqui, nas pessoas próximas que se preocupam comigo e em outras diversas coisas que não consigo mais acessar. Pedi para que chamassem a Fabiana (psicóloga), ou até mesmo a Carolina (psiquiatra), e como sempre, uma demora absurda. No meio disso, e do choro desesperado, alternado a certa indiferença melancólica, pensei na lâmina do apontador, em como poderia tirá-la, como seria a sensação de cortar os pulsos e sentir o sangue esvaindo. Pensei também, em como faria, se fosse o caso, para que não descobrissem a tempo. Logo depois, pensei em deixar o apontador com a enfermagem, mas percebi uma dúzia de objetos que poderiam ser usados com essa finalidade.

Pela primeira vez, que me lembre, cogitei de verdade o ato, até pra ver como seria. Pensei na dor que tenho causado aos próximos, mas lembrei também que minha Mãe se desesperaria com algo assim. Chorei por não ter saída, e logo após agradeci por ter esses freios em minha mente.

Desabafei com a Fabiana, chorei muito. Resumindo, porque meus olhos estão fechando, o que mais me marcou na conversa foi um questionamento vindo dela, que me fez pensar que não importa se meus fracassos foram ou não por doença. O que importa é lidar com isso. Ví aí minha mania de superioridade, vergonha de falhar; talvez por isso tenha medo de tentar.

No meio da crise, tudo que queria era estar com a Juliana, porque nos entendemos de verdade aqui. seria a única pessoa com quem gostaria de estar ao sair. E a Fabiana falou justamente que essa minha “queda” ou desconforto, começou devagar, a partir da saída dela da clínica. Percebo que tentei escapar de mim mesmo substituindo-a, como tentei com a menina do citrad, e esse enfrentamento do real vem aumentando a partir daí. O desconforto é exatamente o que preciso experimentar, encarar. O desconforto de estar comigo mesmo, sem distrações; e aprender a sentir esse desespero, essa angústia, encará-la e ver em que se transforma. Será que é tão ruim e absurdas essas sensações? Será que não posso suportar e transformar em outra coisa?

 

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Diário Clínica St. Roman . Aprendendo um novo caminho

Thursday, December 3, 2009 6:22

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18.8.9 (Terça) . 10:45hs
(continuação)

Minha maneira de fazer as coisas nunca deu certo, é verdade. Mas também é verdade que nunca as fiz exatamente da minha maneira. Estou seriamente inclinado a dar o foda-se pras coisas que não acredito, seguir verdadeiramente meu caminho… pagar o preço ou colher os frutos, não importa. Afinal, tentando me adequar e lidar comigo com mais humildade tem feito o mesmo estrago.

Existem coisas que, só por hoje, sei que quero ou não quero. Talvez seja a hora de dar uma de Ray(1) e segui-las, até o fim, seja ele qual for. Como minha madrinha no NA me diz, pensar e teorizar menos, realizar mais. Preciso principalmente, parar de tentar me adequar ao mundo, pois não me sinto parte dele, em certo sentido. Sei que se estou inserido aqui, é porque devo estar, mas isso não quer dizer que tenha que aceitar sua mediocridade. Eu sou além sim, independente de ser conquista ou dom. Preciso execrar essa hipocrisia de dizer que não sou diferente, porque com certeza sou.

(1) “Ray” é o filme que conta a história de Ray Charles, e uma das minhas interpretações sobre sua biografia, é que foi taxado por muitos de egocêntrico e egoísta, alguém que passa por cima de tudo somente para conseguir o que quer. Mas na verdade, ele sabia o potencial que tinha, e estava convencido de que nada poderia se colocar entre ele e seu caminho. O que ele tinha a dar de si era maior que aquilo tudo, e demandava certo desprendimento.

 

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Diário Clínica St. Roman . Questionando o tratamento e o método

Thursday, December 3, 2009 0:46

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18.8.9 (Terça) . 10:45hs

Acabei de ter consulta com a Carolina e relatei o que aconteceu ontem, e meu sentimento de que nunca terei estabilidade. E ela, inacreditavelmente, veio com aquela conversa de que meu problema é mais existencial. Existencial o CARALHO! Nunca soube que questões existenciais - aliás, que porra é essa de fato? - causassem crises de pânico, mudanças drásticas de humor, repentinas; euforia, pensamentos suicidas, megalomania, e uma porrada de outras coisas que não estou com saco de citar. Ela reduziu um problema que minha médica identificou, a uma mera idiotice. Falou com propriedade sobre como sou, sinto e ajo, sendo que não tivemos nem 10 consultas no total. Tenho ódio disso… desses teóricos que lêem um livro e acham que conhecem todo mundo só de olhar. Uma menina nos seus 20 e poucos anos, achando que sabe algo sobre a vida, sem nenhuma humildade. E o que mais denuncia a falta de experiência, é que ela demonstrou nitidamente ter ficado puta quando foi questionada. Aliás, não quero fazer psicoterapia com ela, simplesmente ver a parte medicamentosa. Legal… deixe a medicação como está. Não me venha dizer como sou, sinto ou ajo. Que vá exercitar sua pretensa sabedoria com suas amiguinhas estagiárias de 20 anos. Repito: Psiquiatra com menos de 30, 35 anos no mínimo, é um crime. Deveriam ser assistentes.

Nessa internação tenho questionado bastante o método da clínica. Calma… Não acho que sei como deveria ser, nem tenho sugestões a dar, mas ainda estamos muito próximos dos manicômios, depósitos de gente; sendo a internação usada apenas pra livrar o surto, e não como tratamento efetivo. Ainda temos muito chão nesse sentido, e isso me dá vontade de abraçar essa área. Mas me sujeitar a um curso inteiro de Medicina, nem pensar.

 

Essa médica, Carolina, realmente era muito inexperiente, residente ainda. E falou grandes besteiras, não porque eu acho, mas porque ela não sabia do que estava falando mesmo. Mas é boa médica, e pasmem… A partir dessa idéia dela de uma crise existencial, hoje meu tratamento está sendo mais inclinado à isso. Tanto a minha psiquiatra como minha psicóloga, acharam o toque dela no meu caso fundamental, e sou grato por isso. (mais pra frente falo à respeito)

Sobre o método de internação, é algo que ainda pretendo desenvolver - minha visão de paciente - quando terminar de transcrever os diários.

 

Continua…