09 Sep
Posted by: efeitos colaterais in: Clínicas, Diário Saint Roman, Internação, Relatos, Sintomas
10.8.9 (Segunda) . 19:25hs
É patético eu estar escrevendo sobre essa merda, tendo tanta coisa importante a abordar, mas é a única maneira que conheço de me livrar, ao menos minimizar o que sinto agora.. Não consegui rezar, nem dormir, então me sobra doer a mão nessa escrita compulsiva e cheia de raiva e mágoa.
Estou com ódio, nem sei de quem. As lágrimas estão retidas, não descem. E as duas horas e meia que me restam do horário habitual do sono me soam como dolorosa eternidade. Exagero? FODA-SE! É a porra que eu sinto, é quem eu sou. As lágrimas agora começaram a descer, porque ouvi a oração da serenidade no andar de baixo (1). Que merda de vida.
Isso tudo, toda essa intensidade, porque é minha segunda internação, e novamente me desfoquei do meu problema por um envolvimento amoroso, ou seja lá o que for esse negócio estranho que tem me trazido mais sofrimento que alegria, nos últimos dias. E a história que tenho a contar sobre isso é patética. Simplesmente desci pra jantar e vi o louco (um paciente), viciado filho da puta, sentado do lado dela…
… Parei de escrever um pouco pra atender o telefone. Meu avô e minha avó, falando com tom de pesar, com o neto louco que está no hospício…
… com o braço em volta, encostando só no sofá, é verdade, mas com um risinho irônico pra mim. Saí logo dali, porque a raiva transparecia facilmente em meu olhar, e isso vira ódio, depois impulso de agressão. Fiquei puto também porque ela já foi “abordada” pelo sujeito, e não fez nenhum gesto em nosso favor, como levantar e ir jantar comigo. Ficou lá, conversando com ele e um outro, gente boa. Eu não consigo ver isso normalmente. Sinto como uma puta falta de respeito e consideração pelo sentimento alheio. Ele é um louco, que se foda. Mas ela está lúcida e é inteligente o suficiente pra entender que isso me machuca.
No jantar, ela tentava puxar assunto, mas eu não conseguia agir normalmente. Depois, sentou afastada de mim, e todos os outros deixaram o espaço entre nós vazio, pois todos sabem sobre nós; enquanto “o louco” rondava, olhando justamente pra esse espaço. Antes que ele se sentasse de fato ali, fui embora, morrendo de raiva e mágoa. Mas consegui dar um beijo nela e lhe pedir desculpas ao ouvido, já que no fundo sei que não há motivo real pra tal exagero.
Essa é a minha vida. Entre a depressão e a mania, tento inutilmente ser alguém produtivo, quase normal, até ser pego pelos extremos e ser inteiramente destroçado, de novo, e de novo…
Chegando ao meu quarto, só pensava no porque de eu me permitir sentir essas coisas. Tinha vindo pra cá com a idéia fixa de não me envolver com ninguém, até ela me dar aquela primeira carta…
Como me sinto fraco… Um babaca chorão e sentimental, que se envolve com toda facilidade, apenas por pensar, de novo, ter encontrado “aquela pessoa”. Não aguento ser assim, e não consigo evitar, ao mesmo tempo. Não vejo a hora dela ir embora, pra acabar com essa dor da dúvida que me toma, com a crescente e sempre presente expectativa de ser plenamente correspondido.E mesmo sabendo que a decisão mais saudável seria dar o foda-se e fingir que nada disso aconteceu - apagar esse envolvimento o quanto antes de minha vida - ainda quero esperar. O que? Não sei, somente esperar. Lembro-me de Exupéry, quando dizia (2), em outras palavras, que nossa vida se resume a esperar.
Eu sou esse homem que espera, e no fundo, essa raiva toda deve ser de mim mesmo.
Essas crises acontecem independente da vontade, e se iniciam com algum dado de realidade, ampliado à extremos, incontrolavelmente. Apesar de não ter controle sobre o que sinto nesses momentos, continuo lúcido, no sentido de saber identificar a crise ou surto, e entender que não estou pensndo normalmente. Que após alguns minutos ou horas, a reação cessa, e o fluxo de pensamentos volta a ser normal. Por isso o zelo em não tomar atitudes nesses momentos, atitudes que certamente me trariam arrependimento e vergonha após passar a crise. Por isso também as desculpas… pois sabia que minha visão, naquele momento, era distorcida.
(1) Oração usada em Narcóticos Anônimos ao abrir e fechar as reuniões, usada no grupo-terapia da ala de dependência química da clínica (CITRAD), no segundo andar.
(2) No livro “Terra dos Homens” de Antoine de Saint Exupéry
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