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21.8.9 (Sexta) . 22:10hs

Hoje foi foda. Passei o dia todo me escondendo com fones de ouvido e óculos escuros, ignorando até mesmo os que vinham falar comigo. O dia foi passando, e no banho, já no final da tarde, notei que estava naquele estado de não sentir nada, mesmo quando forçava a barra pra sentir. Já na hora do jantar, enquanto tentava me isolar e a Lu tentava falar comigo, ela contou de um ex que ela abandonou e que sofreu muito. Comecei a chorar na hora, lembrando da minha namorada. Aqui dentro, a impressão que tenho é a de que é certo que não quero continuar a relação, mas não tem como saber o que vou sentir lá fora, é bem diferente. Estou evitando até o contato telefônico. Nunca liguei pra ela daqui, estranho isso. Talvez porque ela me remeta à cobranças, ou realidade, não sei.

Daí em diante só piorou. Não jantei e fui pro quarto. Alternei sentimentos de desespero e raiva. Aliás, antes de descer tive esse sentimento de querer quebrar as coisas, e ainda lá embaixo, pensei no suicídio e nas duas coisas que me impedem: a parte espiritual, que acabo deixando de lado nessas horas; e o lado dos que ficam, o sofrimento que vou causar. Mas ali pensei numa maneira de minimizar isso - uma carta de suicídio. No quarto, fiquei olhando as veias do pulso e imaginando qual seria melhor, qual não teria perigo de cortão o tendão. Imagine, alguém que supostamente planeja a morte, preocupado com o tendão. O objeto que mais me chamava a atenção, aliás, o único que teria coragem de usar, era o apontador (as lâminas). Tive espasmos de choro desesperado e repeti falas sozinho. Por incrível que pareça, pensar na Bebel (minha cachorrinha) me deixou mais triste que qualquer outra coisa. Queria abraçá-la aqui mesmo no meu quarto. Fiquei repetindo, “minha bebelzinha” algumas vezes, baixinho; e quando reparei no que estava fazendo, passei a repetir compulsivamente “não quero ficar louco”, com a toalha no rosto, olhando a lâmpada no teto. Uma sensação indescritivelmente horrível, que depois de passar se perde totalmente no tempo. A essa altura, já tinha esperado umas 2hs pelo médico, que nunca vem. Resolvi entregar o apontador na enfermagem, e agora vejo que não foi por medo, mas pra colocar pressão. Entreguei dizendo que se fosse depender de atendimento médico tava fudido.

Na troca de plantão e hora do remédio, estava louco de raiva, imaginando que cena faria, o que quebraria, e prevendo amarras e sedativo, que naquele momento seria uma bênção. Questionei o novo plantão e uma enfermeira perguntou se podia adiantar algo. E eu respondi somente que, pra ela ter uma idéia, havia entregado ali o apontador.

Depois disso não demorou 10 minutos para o médico chegar, mas na realidade a crise já tinha ido embora. De qualquer forma, me senti amparado, com medicação revista (mesmo não tendo mudado nada) e atenção redobrada dos enfermeiros, o que foi suficiente pra melhorar um pouco mais. Muita carência… pensei o tempo inteiro o quanto seria bom descer e pedir colo, carinho pra Lu, não por ela, mas por ser a única que me desperta ainda algum interesse. Também senti vontade de falar com a Thays. Aliás, queria ela aqui na visita de amanhã, dar um abraço apertado nela.

Depois liguei pra minha Mãe, mais por não ter atendido telefonema nenhum hoje e também pra pegar o telefone da Thays, quando tive que ouvir um pequeno sermão sobre eu estar aqui pra me tratar, bla, bla. Minha Mãe não entende… A Thays entenderia o que contasse pra ela, porque sentia o mesmo, e esteve aqui comigo no ano passado. Apesar de estarmos distantes, é uma pessoa que me vem à mente quando quero colo. Liguei depois pra Juliana, e foi ótimo ouvir as risadas dela, brincando sobre como seria nós dois depressivos, discutindo formas de suicídio. Ela me fez rir um bocado, e aliviou bastante a pressão que eu sentia.

Agora há pouco veio a enfermeira aqui no quarto, olhando tudo, com razão. Boa pessoa, que inclusive sentou ao meu lado, segurou minha mãe e ficou tentando me consolar enquanto chorava, antes da chegada do médico. Eu sou muito carente, já sabia; mas só agora percebo que é bem mais que imaginava.

Outra coisa que me chamou atenção foi quando a Juliana falou das maneiras de alimentar a depressão, e uma é o isolamento. E foi exatamente o que fiz hoje, o dia todo.

 

Continua…