06 Dec
Posted by: efeitos colaterais in: Diário Saint Roman, Internação, Relatos
19.8.9 (Quarta) . 23:25hs
Como nos últimos 3 ou 4 dias, acordei bem, tendendo à euforia, com piadinhas exageradas e etc. O dia permaneceu assim, sem grandes oscilações, até às 14:00hs, quando solicitei à enfermeira que mantivesse meu ar-condicionado ligado, pois ficaria no quarto escrevendo. A enfermeira foi irredutível e arrogante - a mesma que barrou os chocolates e refrigerantes em outra ocasião. Como ontem tive a informação do enfermeiro que dependia deles a questão do ar, tentei explicar, enquanto ela repetia a mesma curta frase negativa sem nem me olhar. Tive que subir um pouco o tom de voz e dizer que ela iria me ouvir. Então ela disse que se informaria. Nisso, uma das psicólogas passou e falei à respeito, tendo como resposta que deveria falar com a psicóloga que me atende (amanhã somente). Fiquei sem o ar e meio transtornado, porque não tem ventilador, estava muito quente e não conseguiria ficar aqui escrevendo.
Entendo que, se há uma descrição de “quarto individual com ar-condicionado”, ele deve ficar ligado o tempo que eu quiser. Mas entendo também que, sendo uma instituição psiquiátrica, certas medidas são terapêuticas, como para evitar que os pacientes se isolem. O problema na verdade são as sucessivas recusas, respostas atravessadas, descaso e até mesmo abuso por parte da equipe de enfermagem, que têm colocado receio e até medo em alguns pacientes, mesmo na hora de solicitações corriqueiras, como se estivessem ali pra fazer o que querem e não nos ajudar no tratamento. Isso tem causado sérios problemas entre todos, inclusive, com pacientes fazendo queixas desse tipo no grupo-terapia, que teoricamente serviria para que falássemos sobre nossas questões.
Ainda há pouco, pedi pra que falassem com a plantonista, porque ainda estou “ligado”, são 00:10hs, e o horário do café, por exemplo, é às 7:30hs. Até o médico vir, receitar e buscarem na farmácia da clínica, e ainda fazer efeito, seria muito tempo. Pedi às 11:40hs mais ou menos, e sei que s.o.s. só a partir de 11:15hs. A enfermeira (outra), me questionou, porque tomo as últimas medicações às 22:00hs. Mesmo contrariado, disse que esperaria quanto quisessem então, mas fiquei remoendo isso e arquitetando coisas a serem ditas e exigidas. Finalmente, fui até lá solicitar o médico (não pedir) e já tinha falas programadas do tipo: “Você vai chamar o médico quando resolver trabalhar, ou quando eu estiver precisando?” Mas, ainda bem, a medicação já havia sido pedida.
O atendimento está muito precário, aquém do que se paga. Todo mundo sempre muito ocupado e indisponível para dar atenção. Hoje, por exemplo, nem vi a cara do médico, nem ele a minha. Simplesmente rabiscou uma medicação qualquer. Ontem, quando também não tive sono (recorrente há dois dias seguidos) pude inclusive argumentar sobre o tipo e dosagem. Além disso, houve um momento no dia em que minha pressão estava em 15/8, e não foi mais aferida, nem tive consulta clínica. É tudo na base do foda-se. Observei a enfermeira folheando as ocorrências do plantão anterior, e parecia alguém folheando revistas para ver figuras. O salário deles é uma merda, mas também não é meu papel resolver, nem ficar no meio disso. Vim pra ser tratado.
Voltando à questão do ar-condicionado, tive indicações da psicóloga que seria saudável agora, esse meu recolhimento, mas como cada plantão faz o que quer, nunca me passou pela cabeça de que ela deveria deixar isso por escrito. O clima aqui anda pesado. Funcionários grossos e insatisfeitos. Um dos pacientes mais surtados incomodando pacientes e enfermeiros; pacientes que acham que vão exercer política aqui dentro; outro com mania de perseguição e ainda uma outra querendo bancar a xerife. Nisso, essa última, inventou um abaixo-assinado pra tirar uma paciente do andar, o que achei patético. Obviamente não assinei nada, desci, e mais tarde soube da pancadaria e das restrições. As pessoas procuram um bode expiatório, justamente pra não ter que se enxergarem. Por duas vezes hoje, senti-me seduzido por outras pacientes; uma que ficou me acariciando e outra que conversava comigo, seu olhar e postura era sexo puro. Sou muito fraco com relação à isso, cedo à alguns impulsos. Vejo ainda a necessidade de encontrar uma forma de não encarar a realidade. Sobre o ar ainda (eita), fiquei uma boa parte do dia na sinuca por conta disso, enquanto poderia estar produzindo.
1:15hs (Quarta-Quinta)
Agora há pouco, nem sei como começou, mas bati um papo com as duas enfermeiras sobre nosso problema com eles e os deles com a gente e a administração. Foi ótimo, porque quebra aquele clima de inimizade. Elas desabafaram bastante. Adorei.
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